O que podemos aprender com Chesley B. “Sully” Sullenberger III

Silvio Celestino em 2 de Março de 2009 @ 00:01  | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 615

Chesley B. “Sully” Sullenberger III é o piloto que pousou o Airbus A 320 no Rio Hudson. O avião chocou-se com pássaros instantes após a decolagem perdendo ambas turbinas. A decisão de pousar no rio foi rápida e a execução perfeita. Revendo sua entrevista no youtube é impossível não admirar sua elegância, seu profissionalismo e sua humildade ao descrever os momentos que o tornaram um herói.
Ao descrever como salvou as 155 vidas a bordo, Sullemberger apenas afirma: “fiz o que fui treinado para fazer”.

Sempre que alguém preparado está no lugar certo, na hora certa, a possibilidade de resultados positivos aumentam significativamente. Estar preparado significa estar treinado. Mas, o conceito é mais amplo que isto. Principalmente se pensamos no momento atual de crise econômica.

O treino apenas é a primeira atitude de quem deseja preparar-se para os desafios da vida. Quando Barack Obama afirma em seu discurso sobre o Estado da União que pretende tornar os Estados Unidos o país com maior índice de pessoas formadas nas faculdades é porque tem consciência de que não há futuro para indivíduos sem esta formação mínima. Quando o primeiro ministro Chinês visitou a Europa recentemente, assinou nove convênios com a comunidade européia relacionados à educação, isto para um país que já despeja 350.000 engenheiros por ano no mercado. Além disso, a China faz benchmarking de suas faculdades com instituições modelos nos Estados Unidos e na Europa e não se acanha em afirmar que deseja suplantar ambas referências. Por que se preocupar com isto em um momento de contração econômica? Bem… o motivo principal é que uma hora entraremos novamente em uma fase de expansão e precisaremos de profissionais preparados para dar conta do recado. No Brasil e no mundo, um dos fatores de pessimismo para a recuperação econômica é exatamente a falta de mão de obra qualificada.

Mas, só formação acadêmica não é suficiente. Tenho certeza que muitos dos executivos e governantes que colocaram as pessoas, empresas e países na situação atual possuem excelente formação, MBA´s, Doutorado e toda sorte de especialização em finanças, economia e administração. Sinceramente gostaria de conhecer os critérios de seleção dos alunos destes cursos e de seus professores. Será que é possível avaliar alguém eticamente para o estudo? Aprendemos tanta matemática, economia e finanças para darmos crédito a quem não tem condições, criarmos títulos lastreados nestas operações e depois revendê-los inúmeras vezes em complexos contratos globais sem supervisão? É para isto que estudamos? Para que o lucro venha a qualquer preço? Nem as máfias italiana, russa, chinesa e japonesa juntas roubaram tantas riquezas quanto o malogro destas operações que resultaram na crise atual. E ninguém pode declarar que não sabia o que estava acontecendo pois, só para ficarmos no exemplo brasileiro, Fernando Henrique Cardoso escreve sobre este perigo desde quando era presidente: o descontrole dos mercados financeiros globais.
Piloto bom é piloto velho. A experiência ainda é um fator chave: quer seja para pilotar um avião, uma empresa ou a economia de um país. Mas, a experiência conquistada pelos anos não é suficiente, se no decorrer de sua história a pessoa não adquire um mínimo de ética, uma preocupação com a evolução sua e dos demais e o desejo de criar um propósito relevante para si preferencialmente que possa ajudar as gerações futuras a iniciarem sua jornada em condições melhores que a nossa, então sua experiência é apenas o acúmulo de anos.

Quando Sullenberger foi cumprimentado por parentes dos passageiros do vôo que salvara, muitos o agradeceram pelo fato de permitirem que seus filhos pudessem continuar contando com seus pais. Contando com alguém que pudesse cuidar deles até que atinjam a fase adulta e possam cuidar de si mesmos. Não deveria ser este o objetivo de uma geração em relação à seguinte: cuidar para que possa começar em um situação melhor em todos os sentidos? Em termos econômicos, educacionais, ecológicos e éticos?
Ao final da entrevista, Sullenberger afirma que ainda pensa muito no acidente e sempre se faz as seguintes perguntas: fiz tudo que podia? Fiz tudo certo? Felizmente até o momento sua resposta tem sido sim, para ambas. Os governantes e os executivos financeiros que nos colocaram nesta encrenca deveriam se fazer as mesmas perguntas…

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