A Maturidade
Silvio Celestino em 7 de Janeiro de 2008 @ 06:00
Foi uma surpresa para mim quando em meio a um coaching o CEO de uma empresa declarou: “Apesar de casado, pai de um filho e um dos principais executivos de minha empresa… não me sinto um adulto”. Curiosamente este tema repetiu-se em outras oportunidades. Afinal o que faz de alguém um ser humano adulto ?
Na natureza o ciclo de vida de uma planta a partir de seu nascimento somente estará completo quando gerar uma nova semente. No reino animal as espécies lutam entre si pela sobrevivência. E em uma mesma espécie, o mais forte impõe-se aos demais para ter a primazia sobre o grupo.
Em sociedades consideradas primitivas, como as indígenas, para tornar-se adulto o indivíduo deve passar por testes de coragem onde irá provar estar apto a assumir responsabilidades. Estas provas o farão enfrentar suas próprias emoções com especial atenção ao medo e, ao vencê-las, irá morrer como criança para renascer como adulto, assim reconhecido por toda a tribo. O que nos remete à raiz da questão: para ser adulto algo deve acontecer com a pessoa de forma a transformar sua visão de mundo.
Esta transformação é responsável por fazê-la adotar um propósito para sua existência. Algo que seja tão relevante, marcante e inspirador que a fará renunciar a seus comportamentos infantis para adotar uma postura adulta. Ou seja, uma conduta pautada por seu propósito e com domínio de suas emoções.
Na sociedade ocidental em geral e na latina em particular as emoções são valorizadas demais. Como conseqüência adotamos ações que super protegem o indivíduo com a melhor das intenções: evitar que sofra. Entretanto, ao exagerar nesta preocupação criamos pessoas com baixa tolerância a frustrações. Isto é, pessoas que desistem frente a menor dificuldade pois crêem que “a vida tem de ser fácil, se não eu não agüento”.
Contudo, analisando a chance de alguém desenvolver-se com tarefas fáceis vemos que é muito baixa. Isto porque somente crianças celebram feitos ridículos. O ser adulto celebra conquistas difíceis, principalmente aquelas consideradas impossíveis.
Por exemplo: imagine que uma criança está jogando bola com seu pai e este pede a ela que chute a bola. Entretanto, ao fazê-lo ela imprime pouca força e a bola encaminha-se lentamente em direção ao gol. O pai então simula um salto em câmera lenta e permite que a bola entre. Em seguida corre em direção à criança para abraçá-la por ter feito o gol. A criança celebrará sem cerimônia. O ser humano adulto, pouco provável ! Ele quer fazer um gol de verdade em um goleiro que faça de tudo para impedi-lo. Quando alguém deseja que a vida seja fácil, está comportando-se como uma criança.
Nossa sociedade reduziu o rigor dos ritos de passagem que praticamente desapareceram. Sendo assim as pessoas constroem resiliência insuficiente para desenvolverem-se e preencherem um propósito elevado. Vejamos o exemplo do ensino no Brasil: o ciclo básico nas escolas promove alunos despreparados. Os vestibulares em algumas faculdades são propositalmente fáceis. A formação dentro delas exige pouco dos alunos que recebem certificados mesmo que estejam insuficientemente formados.
Mas aí chega o momento de se enfrentar a dura realidade nas empresas: somente os melhores avançam. É verdade que encontramos alguns apadrinhados dentro das organizações. Mas é uma ilusão imaginar que sem competência é possível estabelecer-se. É neste exato momento que as pessoas desacostumadas a lidar com frustrações quebram.
Na vida pessoal ocorre o mesmo: o convívio familiar, as doenças graves, a morte do ente querido, a nossa própria morte. Tudo isto faz parte de nossa existência. Mas muitos acreditam que vão evitar permanentemente estes eventos. Pensam que deve haver uma saída para a vida sem confrontá-los. Será uma busca em vão. Na vida há eventos que desejamos que aconteçam e há os que queremos que jamais ocorram. Ambos fazem parte da vida. Se você se deixar entristecer ou desanimar exageradamente por eventos ruins, bloqueará as condições para desenvolver-se rumo à maturidade.
A primeira ação para ser um adulto é aprimorar sua capacidade de estabelecer e cumprir compromissos. Em outras palavras agir e falar pautado por um propósito e dominar suas emoções sem deixar-se influenciar por elas. Crianças e adolescentes mudam de interesse a cada instante, tendo muita dificuldade de comprometer-se com algo por muito tempo. Isto é esperado e devemos dar-lhes apoio para que paulatinamente percebam a vantagem de se abrir mão da gratificação imediata pela futura. Ou seja, esperar o tempo necessário para que seus desejos e projetos amadureçam e dêem frutos consistentes e valiosos.
É quando a sociedade tem o compromisso de apoiar a formação do indivíduo que o amadurecimento deste ocorre de forma consistente. É a sociedade que deve estar a serviço da pessoa e nunca o contrário. Quando a sociedade ignora seu papel de manter um conjunto de ritos que formem o ser humano adulto você tem toda sorte de atrocidades. Ações destrutivas e contrárias à razão praticadas por jovens que ignoram como se comportar numa sociedade civilizada.
O comportamento civilizado em si é um compromisso do indivíduo para com os demais. Voltamos portanto à questão inicial: o comportamento de uma pessoa é que a define como adulta e independente de sua idade, cabelos brancos, o fato de ser casada, ter filhos ou ser um importante executivo de uma organização.
Sendo assim, inexiste em suas emoções o que lhe diga que é um adulto – o executivo citado no começo do artigo portanto dificilmente irá sentir-se um adulto. Deve preocupar-se em comportar-se como tal. A maturidade virá das conseqüências deste comportamento em forma de resultados a longo prazo expressos em: um filho bem formado, uma empresa sólida e em expansão, uma família conduzida com valores elevados, um trabalho genuíno de aprimoramento próprio contínuo, um legado para as gerações futuras e assim por diante.
Há atos que nos levam à evolução e outros que a bloqueiam, o ser humano adulto focalizará os primeiros e os realizará cada vez mais em sua vida até o final.
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